domingo, 8 de janeiro de 2023

O que é harmonia?

 

O que é harmonia?


     

Resumidamente, podemos dizer que melodia consiste em notas musicais tocadas em sequência (uma de cada vez) e, harmonia, notas musicais – duas ou mais - tocadas simultaneamente. Explico melhor.

Uma melodia pode ser cantada a cappela, isto é, sem acompanhamento instrumental. Esta mesma melodia também pode ser tocada por um instrumento apenas; então dizemos que o instrumentista está solando a melodia. Solo é uma palavra de origem italiana que significa sozinho, em português. Embora não possamos dizer que uma instrumentista está tocando a capella, cantar a capella também é uma maneira de solar uma melodia, pois o intérprete está cantando sozinho.

Em geral, vemos cantores se apresentando acompanhados por um violão ou um piano, que são instrumentos - diferentemente da flauta, do saxofone, da clarineta etc. - capazes de tocar muitas notas ao mesmo tempo. Nesse caso, os instrumentos acompanhantes (violão e piano) estão tocando a harmonia, que é uma organização de blocos de notas musicais que servem de base para a melodia. A esses blocos de notas damos o nome de acordes. Por muito tempo, no Brasil, os acordes tocados no violão foram chamados de “posições”.  

Quando os cantores ou instrumentistas são acompanhados por um conjunto musical, pode acontecer de vários instrumentistas estarem tocando harmonias ao mesmo tempo – cavaquinho, violão, guitarra e piano, por exemplo -, ou a harmonia pode ser dividida entre os instrumentos do conjunto acompanhante, como no caso de uma orquestra em que cada instrumento pode estar tocando notas em sequência, mas, como elas soam simultaneamente, o conjunto faz soar a harmonia acompanhante.

Quando você ouvir um coral cantando, preste atenção e verá que cada voz canta uma melodia diferente, de modo a permitir que ocorram encontros de notas musicais que configurem uma harmonia. E quando ouvir o Chico Buarque cantando e tocando violão, saiba que, com a voz, ele canta a melodia e, com o violão, toca a harmonia.

quinta-feira, 14 de abril de 2022

Arranjo



 

      Fazer o arranjo de uma canção ou de uma música é, principalmente, prepará-la para ser apresentada ao público ou para ser gravada em CD ou DVD, por exemplo.

      Geralmente se diz que o arranjo é a reorganização de uma obra musical, já gravada (ou apresentada), para ser reapresentada por um conjunto diferente. Se arranjo tivesse apenas essa definição, nos créditos dos CDs dos quais constem canções inéditas não haveria a figura do arranjador, pois aquelas canções ainda não teriam sido manifestadas.

      No caso da canção popular, nós dizemos que a letra e a melodia são seu núcleo de identidade, isso porque é por meio desses elementos que podemos afirmar que uma canção do Lulu Santos, mesmo que gravada por um grupo e samba – em ritmo de samba – não deixará de ser do Lulu Santos nem de ter suas raízes melódicas no estilo deste compositor.

      De certa forma, quando uma pessoa está cantando no banheiro, já está fazendo um gesto mínimo de arranjo, porque já está escolhendo a voz que manifestará a canção; o tom em que ela deverá ser cantada; seu andamento e sua dinâmica.

      O leitor pode perguntar: “se não formos músicos, como saber fazer um arranjo?”. Bem, todos os dias fazemos operações químicas e físicas sem ser químicos ou físicos. Explico. Ao fazer uma laranjada, misturamos água, suco de laranja, açúcar e gelo (química). Ao atravessarmos uma rua, não calculamos a velocidade do automóvel em relação à distância que estamos dele para saber qual a velocidade que deveremos imprimir aos nossos passos para que não sejamos atropelados (física). Por que não podemos fazer um gesto mínimo de arranjo sem ser músicos?

      No âmbito profissional, o arranjador escolhe os instrumentos que participarão do arranjo de acordo com as características da música. O tom, de acordo com as características do intérprete. Também faz escolhas no que diz respeito a andamento, dinâmica, contrapontos, harmonia e muitas outras coisas. No entanto, não devemos esquecer de que, o arranjador poderá intencionalmente fazer um arranjo que vá de encontro às características da composição com o intuito de dialogar com o compositor, contradizendo-o. Raramente isso acontece, mas, acontece.


domingo, 9 de janeiro de 2022

 

Letra de Música 


 

      Os dicionários definem letra como “palavras que acompanham as músicas nas óperas, canções etc.” Ou “texto em verso de certas músicas, correspondente à parte que deve ser cantada”.

Primeiro, nem sempre se canta com letra. Portanto, podemos ter uma melodia cantada que não dependa de palavras - “Ária da “Bachianas nº 5”, por exemplo. Segundo, o termo libreto nomeia de maneira mais eficaz o componente linguístico da ópera; fato que nos dá o direito de reservar o termo “letra” para designar o texto da canção popular.

      O francês nomeia a letra da canção com o termo “parole” (palavra, discurso etc.) – talvez aí esteja a origem da expressão “palavra cantada” para designar a letra de canção – e “parolier” o autor das letras, reservando o termo “librettiste” para o autor do texto ou do argumento de uma ópera. E de modo semelhante procede o italiano.

      No Brasil, há algum tempo, abandonamos as palavras “poesia”, “poema”, “texto” e adotamos definitivamente “letra” para denominar as palavras cantadas de uma canção popular, assim como chamamos “letrista” o autor de letras e libretista o autor de libretos ou argumentos de ópera.

      Desde os tempos mais remotos, poemas são musicados por cantadores de lundu e modinha. A figura, a meu ver, que merece ser considerado o primeiro letrista é Catulo da Paixão Cearense.

      Personagem reverenciado tanto quanto contestado, Catulo colocou letra em melodia de grandes músicos, como Anacleto de Medeiros e Villa-lobos. O problema é que Catulo não só colocava letras em melodias já consagradas como, não raramente, trocava-lhes o título. Assim, João Pernambuco morreu sem conseguir provar que “Luar do Sertão” era, na verdade, seu coco “Engenho do Humaitá”, com letra de Catulo.

      Catulo chegou ao extremo de musicar “Iara”, de Anacleto de Medeiros, e processar Villa-lobos porque este utilizou a melodia de “Iara” em sua obra “Choros nº 10”. Atente, caro leitor, para o fato de que ele pôs somente a letra e a Chamou de “Rasga Coração”, portanto não tinha o direito de reclamar direitos pela melodia que, originalmente, era de Anacleto. Por essas e outras é que recebeu, de Radamés Gnattali, o pejorativo apelido de “Chatulo da Paixão Cearense.

         

terça-feira, 14 de abril de 2020

Morreu um documento da raça




No meio de uma sesta, sou acordado pela TV aberta e ligada, que informava que havia morrido Moraes Moreira, um dos maiores cancionistas brasileiros de todos os tempos. Senti como se estivesse envolvido pela canção moreiriana: entre o abraço do parceiro e um pedaço de amargura. Mais amargura do que abraço. Tristeza.
         Antônio Carlos Moraes Pires morre num Brasil amargo. Num Brasil em cujo comando não há quem possa reverenciá-lo à altura da sua contribuição para o caldo da cultura brasileira. Num Brasil que não respeita seu coração democrata, nem o futuro das meninas do Brasil com o qual ele sonhava. Num Brasil doente de corpo e alma.
         Era final do Jornal Hoje. Eu me lembrei, como se fosse hoje, do dia em que a guitarra baiana de Armandinho rasgou a tela da TV e nos apresentou “Pombo Correio”, frevo com letra de Moraes Moreira sobre melodia de Dodô e Osmar. Sim, Moraes Moreira, Armandinho, Dodô e Osmar haviam tomado o lugar ocupado por Johnny Mathis e sua linda canção “Evie” por muitos anos. Um emblemático momento que prenunciava o que só iria acontecer vinte anos mais tarde, quando a música popular brasileira retomou o poder na indústria da música.
         Quase ninguém compreendeu quando Morares Moreira disse, em sua quase folclórica “Preta, Pretinha”, que iria chamar seu amor de “Só”: “Só, somente só/ Assim vou lhe chamar/ Assim você vai ser”. Como chamar de Só, alguém que se convidava para abrir a porta e a janela e ir ver o sol nascer?
         O fato era que Luiz Galvão, um dos Novos Baianos, autor da letra, havia arrumado uma namorada em Niterói, no Rio de Janeiro, em cuja capital já viviam Os Novos Baianos. Essa namorada se chamava Socorro. Fossem eles paulistas, ela seria chamada de Sô, como eram baianos, a chamaram somente de Só. A barca entrou na canção por conta da travessia Rio-Niterói.
         Enfim, morreu um brasileiro. Criador e criatura. Um documento da raça pela graça da mistura, a quem eu dedico um poema que fiz há poucos anos:

MODO DE DIZER
haverá um dia
minha gente
que, assim
do nada
minhas palavras
só serão
ditas cantadas.


        

quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Cancioneiro, Cancionista e Cançonetista






      Os países que falam espanhol, há muito, já possuíam um termo para designar o profissional que trabalha com canção popular. Nesses países, aquele que compõe e canta canções é chamado “cantautor”. Na Itália, esse mesmo profissional é chamado “cantautore”.
      Curiosamente, até pouquíssimo tempo, nós, brasileiros, não tínhamos um termo específico para designar a profissão de Chico Buarque, Caetano Veloso, Geraldo Azevedo, Zezé di Camargo, Arlindo Cruz, Frejat etc., a não ser o termo “compositor popular”.
      O leitor pode estar pensando: “Não é verdade, existe o termo cancioneiro”. Na verdade, cancioneiro é coleção de canções. Pode ser o conjunto de canções de uma época, de um estilo e até de um compositor, em especial. Por isso, muitas vezes ouvimos: “agora, fulano irá cantar uma página do cancioneiro popular”.
      Embora o sufixo “eiro” sirva para designar um sujeito que faz alguma coisa a partir de uma habilidade específica - marceneiro, faxineiro, carpinteiro, pedreiro etc. -, ele também pode designar um conjunto: formigueiro, aguaceiro etc. -. Tal qual acontece com os termos romancista e romanceiro, nós, estudiosos da canção popular brasileira, sob o impulso dado por Luiz Tatit, optamos por reservar o termo “cancioneiro” para marcar o conjunto de canções.
      Portanto, cancionista é o profissional que lida com canções. Pode ser compositor cancionista, instrumentista cancionista, intérprete cancionista e até arranjador cancionista. Mas, a figura que mais o representa é a do cantor e compositor de canções populares (os cantautores), que, de maneira muito habilidosa, e quase sempre sem conhecimentos musicais, une uma letra e uma melodia, muitas vezes de maneira indissolúvel.
      Ainda existe o termo cançonetista, que é o profissional que se utiliza de canções para apresentar pequenos monólogos. Um dos nossos maiores expoentes nesse estilo foi o querido e divertido Ivon Cury; e um dos fundadores do estilo cançonetista foi Pedro Manuel dos Santos, o Bahiano, que fez a primeira gravação em disco, no Brasil; o lundu, “Isto é Bom”, de Xisto Bahia.





quarta-feira, 23 de outubro de 2019

O que é melodia?




      Estamos diante de um termo utilizado frequentemente, mas, que, em geral, as pessoas não sabem exatamente o quer dizer.
      Os dicionários dizem que melodia é uma “sucessão rítmica, ascendente ou descendente, de sons simples, a intervalos diferentes, e que encerram um sentido musical”. Aproveitarei essa definição para explicar o termo.
A.   É “uma sucessão rítmica” porque tem de haver uma organização das durações das notas musicais tocadas uma após a outra.
B.   “Ascendente ou descendente” porque ela pode ir de sons mais graves (grossos) para sons mais agudos (finos) ou vice-versa; e pode também haver um desenho melódico que comece ascendente e termine descendente. Diz-se ascendente ou descendente porque, a rigor, as notas musicais são chamadas alturas. Cantar mais alto, em música, é cantar mais agudo e, não, com mais “volume”. Cantar (ou tocar) com mais volume é fazê-lo com mais intensidade. E, ao contrário, mais baixo é mais grave e, não, com menos intensidade.
C.   “De som simples” quer dizer com apenas uma nota de cada vez, pois, ao tocar mais de uma nota ao mesmo tempo, entramos no campo da harmonia.
D.   Intervalos, no que diz respeito à teoria musical, é a distância entre as notas musicais. Então, os dicionários dizem que a melodia deve conter “intervalos diferentes”. No entanto, não devemos esquecer que os primeiros compassos da mundialmente famosa “Samba de Uma Nota”, de Tom Jobim e Newton Mendonça, são constituídos por uma nota só e nem por isso deixa de ser uma melodia. Os compositores mantiveram a nota, mas trocaram os acordes que serviam de base harmônica para essa nota, criando um efeito como o de o desenho de um boneco do qual se muda o fundo (da praia para o campo, por exemplo), e aí temos a impressão de que o boneco também mudou de posição, de estado de ânimo etc. Coisa de gênio!
E.   A questão de “encerrar um sentido musical”, a meu ver, é a mais polêmica dessa definição, pois sabemos que música é a organização de sons e silêncios com a intenção de que os ouvintes a escutem como música. No limite, quem decide se uma certa organização de sons é música é o ouvinte; não é à toa que se diz em relação a determinadas audições: “isso é música para meus ouvidos”.

quinta-feira, 28 de setembro de 2017

Ritmo

O termo ritmo é frequentemente confundido com gênero ou com melodia. Primeiramente, entendamos que melodia tem ritmo, mas ritmo não tem melodia.
A rigor, no âmbito da música, ritmo é a organização das durações, seja a duração das notas musicais, dos acordes que acompanham uma melodia ou das partes de uma música. Basta que o leitor cante uma canção para notar que algumas sílabas duram mais que outras. Como essas sílabas são cantadas sobre notas musicais, se você cantar a mesma canção com apenas uma sílaba – lá, lá, lá, por exemplo – vai ser fácil perceber que as notas da melodia da canção cantada têm diferentes durações. Isso é ritmo; é a organização das durações das notas musicais da canção.
Faça a seguinte experiência: primeiramente, cante a canção “Parabéns a você”. Depois, cante esta mesma canção utilizando apenas a sílaba “La”. Agora, como se fosse um jogo de adivinhação, em vez de cantar, bata palmas no lugar das sílabas, como se estivesse tocando a canção com as mãos. O resultado é que você estará tocando o ritmo da melodia. Por isso, adverti logo no início, que melodia tem ritmo, mas ritmo não tem melodia. Assim fica fácil compreender porque frequentemente os percussionistas são chamados de ritmistas.
Outro ritmo musical muito importante é o chamado ritmo harmônico. Este ritmo é a organização da duração dos acordes. Grosso modo acordes são conjuntos de notas musicais tocadas ao mesmo tempo, que servem de apoio harmônico para as melodias. Comumente as pessoas chamam os acordes de um violão de posições do violão. O tempo em que o instrumentista toca os acordes também tem de ser organizado de forma que crie um discurso harmônico, que, além de servir de apoio para a melodia, mantenha com ela uma relação de harmonia sonora. Preste atenção nos violonistas e pianistas quando estiverem acompanhando um cantor e você perceberá o discurso harmônico dos músicos.
A organização entre as partes das canções e das músicas também são muito importantes. A escolha da duração dos refrães e das segundas partes, da forma ABA, assim como a duração das partes da forma rondó (ABACA) ou do movimento das sinfonias são de extrema importância para a definição do discurso temporal da obra e que, em última instância, tem importantes decorrências na relação composição/ouvinte.

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