quinta-feira, 17 de abril de 2025

Soneto ou Tamanco?

 


                                Colocar letra em uma melodia é extrair de um modo de dizer o que pode ser dito, afirma Luiz Tatit. Assim como Paul Valèry, explicando como o "poeta desperta no homem", conclui: " às vezes, alguma coisa quer se exprimir, às vezes, algum meio de expressão quer alguma coisa para servir".

                               Este modo de dizer melódico, na verdade, é um mecanismo de contenção da velocidade da fala, ou seja, através das reiterações do discurso musical, o cancionista estabiliza as entonações desordenadas da fala cotidiana que, se não fossem os recursos melódicos, estariam fadadas à coadjuvação, apenas produzindo ênfase ao conteúdo do discurso oral e desaparecendo assim que a mensagem fosse inteiramente compreendida pelo destinatário. Na canção, ao contrário, a melodia significa.

                                Além dos compositores-cancionistas, craques em fazer letras concomitantemente com a melodia, a recente história da canção popular brasileira já elenca outros tantos craques em extrair do modo melódico de dizer aquilo que pode ser dito. Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Capinam, Cacaso, Victor Martins, Fernando Brant, Antônio Cícero, Abel Silva, entre muitos outros, foram e são responsáveis por dar à expresão melódica de seus parceiros alguma coisa para servir e, não raramente, o cardápio é variado e saboroso.

                                 Não obstante o grande respeito dispensado aos letristas, anedotas mil acometem este peculiar fazer estético. Precisaria de dezenas de páginas para comentar apenas as que ouvi ou li e ainda guardo na memória, mas, as duas que se seguem são por demais interessantes para não serem propagadas.

                                Certa vez Sílvio Caldas pediu a Claudionor Cruz e Pedro Caetano que lhe fizessem, com a urgência de uma semana, uma canção nos moldes do então sucesso de Bororó, "Curare". Os compositores sabendo que não teriam tempo para se encontrar, resolveram o problema de uma maneira muito peculiar, seguindo à risca a encomenda: Claudionor faria uma nova melodia para os versos de "Curare" e Pedro Caetano uma nova letra para a melodia da mesma canção. A dois dias da estréia, Sílvio Caldas se encontra com os compositores e juntos fazem os ajustes finais do sucesso que naquele momento nascia, e fora batizado de "Nova Ilusão", sendo por muitos considerada como a canção mais bem feita da dupla.

                                   A obra de Chico Buarque talvez seja a que mais tenha sofrido paráfrases anedóticas nestes últimos trinta anos. Recentemente, em uma lista de discussão na internet, li o seguinte comentário: Tom Jobim havia terminado a melodia de "Retrato em Branco e Preto" e pediu para seu parceiro, Chico Buarque, colocar-lhe letra. Após freqüentes telefonemas cobrando a letra do parceiro, Chico terminou o serviço e a enviou a Tom. Pouco tempo depois, o compositor da melodia telefona a Chico e lhe diz: Está tudo certo, mas as pessoas não dizem "retrato em branco e preto" e sim "retrato em preto e branco". Ao que Chico teria respondido: Está bem, então você troca "soneto" por "tamanco". É isso.

 

Márcio Coelho é cancionista e mestre e doutor em semiótica aplicada à canção popular brasileira na FFLCH-USP-SP.