Colocar letra
em uma melodia é extrair de um modo de dizer o que pode ser dito, afirma Luiz
Tatit. Assim como Paul Valèry, explicando como o "poeta desperta no
homem", conclui: " às vezes,
alguma coisa quer se exprimir, às vezes, algum meio de expressão quer alguma
coisa para servir".
Este modo de
dizer melódico, na verdade, é um mecanismo de contenção da velocidade da fala,
ou seja, através das reiterações do discurso musical, o cancionista estabiliza
as entonações desordenadas da fala cotidiana que, se não fossem os recursos
melódicos, estariam fadadas à coadjuvação, apenas produzindo ênfase ao conteúdo
do discurso oral e desaparecendo assim que a mensagem fosse inteiramente
compreendida pelo destinatário. Na canção, ao contrário, a melodia significa.
Além dos
compositores-cancionistas, craques em fazer letras concomitantemente com a
melodia, a recente história da canção popular brasileira já elenca outros
tantos craques em extrair do modo melódico de dizer aquilo que pode ser dito.
Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Capinam, Cacaso, Victor Martins, Fernando
Brant, Antônio Cícero, Abel Silva, entre muitos outros, foram e são
responsáveis por dar à expresão melódica de seus parceiros alguma coisa para
servir e, não raramente, o cardápio é variado e saboroso.
Não obstante o
grande respeito dispensado aos letristas, anedotas mil acometem este peculiar
fazer estético. Precisaria de dezenas de páginas para comentar apenas as que
ouvi ou li e ainda guardo na memória, mas, as duas que se seguem são por demais
interessantes para não serem propagadas.
Certa vez
Sílvio Caldas pediu a Claudionor Cruz e Pedro Caetano que lhe fizessem, com a
urgência de uma semana, uma canção nos moldes do então sucesso de Bororó,
"Curare". Os compositores sabendo que não teriam tempo para se
encontrar, resolveram o problema de uma maneira muito peculiar, seguindo à
risca a encomenda: Claudionor faria uma nova melodia para os versos de
"Curare" e Pedro Caetano uma nova letra para a melodia da mesma
canção. A dois dias da estréia, Sílvio Caldas se encontra com os compositores e
juntos fazem os ajustes finais do sucesso que naquele momento nascia, e fora
batizado de "Nova Ilusão", sendo por muitos considerada como a canção
mais bem feita da dupla.
A obra de
Chico Buarque talvez seja a que mais tenha sofrido paráfrases anedóticas nestes
últimos trinta anos. Recentemente, em uma lista de discussão na internet, li o
seguinte comentário: Tom Jobim havia terminado a melodia de "Retrato em
Branco e Preto" e pediu para seu parceiro, Chico Buarque, colocar-lhe
letra. Após freqüentes telefonemas cobrando a letra do parceiro, Chico terminou
o serviço e a enviou a Tom. Pouco tempo depois, o compositor da melodia
telefona a Chico e lhe diz: Está tudo certo, mas as pessoas não dizem
"retrato em branco e preto" e sim "retrato em preto e
branco". Ao que Chico teria respondido: Está bem, então você troca
"soneto" por "tamanco". É isso.
Márcio Coelho é cancionista e mestre e doutor em semiótica
aplicada à canção
popular brasileira na FFLCH-USP-SP.
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