No início do século 20, período no qual foi forjado o samba urbano, no Rio de Janeiro - consequentemente, a canção popular como a conhecemos hoje -, não havia como os compositores pretos e pobres divulgarem suas produções, pois não ainda havia sequer rádio.
Os compositores de
música instrumental de classe média (mais tarde, também os cancionistas
remediados) tocavam nas lojas que vendiam instrumentos e partituras, para
divulgarem suas obras.
Como o samba não faz
parte da tradição grafomediada, isto é, da tradição de compositores que compõem
tendo a escrita musical como mediadora da criação, de que modo fariam os
compositores de samba, que frequentavam os terreiros das Ialorixás, chamadas
popularmente de "tias baianas", para fazerem sua obra ir além do
território conhecido como Pequena África, onde atualmente fica o Cais do
Valongo? Vejamos.
No final de abril,
acontece, desde então, a grande Festa da Penha, que tem lugar na Basílica
Santuário de Nossa Senhora da Penha. Para lá, um grande contingente de cariocas
se dirigia para festar durante uma semana.
Festa
da Penha 2022 - Missa Encerramento - Foto Fernando Ribeiro
Como o artista tem de
ir aonde o povo está, para lá se dirigiam Donga, Sinhô, Bahiano, Ismael Silva, Assis
Valente, João da Baiana, Pixinguinha e toda a plêiade de precursores da canção
popular feita pra tocar no rádio. Lá, cantavam, tocavam e, assim, seus sambas
ficavam mais conhecidos e começavam alçar voo.
Não à toa a Festa da Penha,
como é conhecida, e/ou o bairro da Penha são citados frequentemente nas letras
da canção popular brasileira, vejamos alguns exemplos:
“Eu fui à penha
Fui pedir à
padroeira para me ajudar”
– Brasil Pandeiro, de Assis valente
“Hoje é domingo
E, eu preciso ir
à festa
Não brincarei
Quero fazer uma
oração
Pedir à santa
padroeira proteção
Entre os amigos
Encontrarei algum
que tenha
Hoje é domingo
E, eu preciso ir
à Penha” – Festa da Penha, de Cartola
“Demonstrando a
minha fé
Vou subir a Penha
a pé
Pra fazer minha
oração
Vou pedir à
padroeira
Numa prece
verdadeira
Que proteja o meu
baião” - Baião da Penha – Guio de Moraes e Luiz
Gonzaga
“Você é a festa
da Penha
A feira de São
Cristóvão
É a Pedra do Sal” – Pé do Meu Samba – Caetano Veloso
Até esse cancionista
que vos escreve já subiu os 365 degraus da “Igreja da Penha” para pagar
promessa, mesmo sem nunca ter me declarado católico. Talvez, lá tenha ido intuitivamente,
seguindo meus mestres ancestrais do samba.





