terça-feira, 27 de junho de 2017

Canto x Fala

“Você já foi à Bahia?” é um dos sambas mais conhecidos de Dorival Caymmi. Esta canção emprestou seu nome ao desenho animado de Walt Disney, que faturou o Oscar de melhor trilha sonora, composta por Ary Barroso e Caymmi. É com esta belíssima composição que vamos compreender como se dá a relação entre fala e canção na música popular brasileira.
Experimente falar os seguintes versos iniciais do samba de Caymmi:
“Você já foi à Bahia, nega
Não?
 Então, vá”
Agora cante os versos com a melodia original da canção. Certamente, caro leitor, você percebeu que a melodia da entonação da sua fala se assemelhou à melodia da canção. Isso ocorreu porque, inconscientemente, é assim que os cancionistas criam, isto é, estabilizando as entonações da fala cotidiana.
Facilmente identificamos nestes versos duas perguntas (Você já foi à Bahia? e Não?); um vocativo, isto é, com quem se fala (nega); e uma frase conclusiva (Então, vá.). Pois bem. Não é verdade que, quando fazemos uma pergunta, a melodia da nossa fala se dirige à região aguda com a intenção de criar uma expectativa de resposta? Pois com a melodia da canção ocorre a mesma coisa. Também não é verdade que, quando fazemos uma afirmação, nossa entoação busca a região grave? Como Caymmi tinha absoluta certeza de que qualquer ser humano se encantaria com a sua terra natal, com duas palavrinhas e uma melodia que repousa na região grave, ele pede ao seu interlocutor que vá visitá-la. Entre esses enunciados está o vocativo, na região grave, como se estivesse entre vírgulas. Experimente falar a seguinte frase: “Você, Carlos, não poderá sair de casa hoje”, e verá que a melodia da sua fala novamente buscará a região grave quando enunciar o vocativo “Carlos”. Note que, na frase escrita, o vocativo também está entre vírgulas
Conclusão: é com o material melódico existente em nossa fala cotidiana que os compositores de canção popular trabalham, por isso é que muitos deles não precisam nem ser músicos para compor obras encantadoras.
Preste atenção nas melodias das canções que você ouve diariamente e perceberá sua semelhança com a melodia da nossa fala cotidiana. É por essas e outras que a teoria Semiótica da Canção diz que “a canção é a extensão estética da fala”.



quinta-feira, 8 de junho de 2017

A canção popular

É importante que se entenda que canção popular não é um gênero de música e, sim, uma categoria de linguagem. Assim como o cinema e a telenovela utilizam elementos da linguagem teatral sem ser teatro, a canção popular lança mão de elementos da linguagem musical sem ser música.
Ao contrário do que se pensa, a base para a construção de uma canção popular não é a música, mas a fala. À primeira vista, tal afirmação pode parecer estranha, mas pense: por que todo povo tem canção? Por que todo mundo canta? Porque todo mundo sabe falar! Explicarei melhor.
Com exceção de alguns poucos compositores, os cancionistas compõem suas canções a partir de uma sequência de acordes tocada à exaustão no violão ou no piano, até que surja uma frase acompanhada de uma melodia que eles considerem um bom ponto de partida para sua criação. Alguns compositores sequer sabem tocar um instrumento e realizam esse processo a partir de experimentos com a palavra cantada. É isso! Como dizia Augusto de Campos em O Balanço da Bossa: “A palavra cantada é outra coisa”. 
Luiz Tatit foi quem nos deu a chave para compreender profundamente este processo. Na verdade, o cancionista – esse equilibrista de melodia e letra – utiliza como material para suas criações a melodia da fala cotidiana. Isso mesmo! A nossa fala cotidiana já é carregada de uma melodia desorganizada e desestabilizada. Esta melodia é dessa maneira porque ela só tem a função de dar ênfase ao conteúdo do nosso discurso. Assim que a pessoa que está nos escutando compreendeu o que queremos dizer, a melodia de nossa fala não tem mais nenhuma utilidade. Com a canção é diferente, o cancionista cria um texto, que como vimos já tem uma melodia, e o repete sempre da mesma maneira, no mesmo tom, com a mesma curva melódica, com o mesmo ritmo. Dessa maneira ele estabiliza a melodia da fala cotidiana e esta ganha o estatuto de melodia musical, na maioria das vezes a partir do apoio dos acordes do instrumento (em geral, violão ou piano) utilizado. Daí sua caracterização como canção popular. Por isso, todo ser humano que sabe falar é um cancionista em potencial.

“Minha palavra cantada pode espantar
E aos seus ouvidos parecer ilógica”
(Excerto da canção “Muito Romântico”, de Caetano Veloso)





quinta-feira, 1 de junho de 2017

Canção

De um modo geral, canção é uma obra artística composta por melodia e letra, isto é, uma obra formada por elementos musicais e linguísticos. Todavia, há vários tipos de canção: canção lírica, canção popular, canção de ninar, canção de trabalho, canção cigana etc. Podemos inclusive considerar a ópera como uma grande canção.
Por volta do século XIV surgiram, na Itália e na França, diversas formas de canção com acompanhamento instrumental, com destaque para as canções de Josquin des Près. No início do período Barroco, as composições de John Dowland para alaúde e voz se tornaram muito populares na Inglaterra. Aos poucos as canções do Barroco cederam espaço para o Lied romântico alemão, que tem como principais expoentes Schumann e Schubert. Lied, palavra alemã, que dizer genericamente “canção” e é utilizada nas configurações Kunstlied (canção artística ou erudita) ou Volkslied (canção popular). Os românticos russos também lançaram mão desta linguagem artística, a exemplo de Glinka e Tchaikovsky. Também os compositores, chamados eruditos, de períodos mais recentes, como Debussy, compuseram canções; e este modo de fazer música chegou ao século XX com os mesmo encanto de suas origens; Alban Berg e Arnold Shönberg são dois bons exemplos disto.
A canção erudita brasileira é representada por grandes nomes da nossa música de concerto como: Villa-Lobos, Camargo Guarnieri; Guerra Peixe; Cláudio Santoro e pelo nosso grande compositor de óperas – “O Guarani” e “Fosca”-, Carlos Gomes.
Todos os compositores brasileiros citados se ocuparam da canção de concerto, no entanto, diferentemente do europeu, o púbico brasileiro é apaixonado pela canção popular e seus representantes estão entre os melhores do mundo. Nas próximas páginas abordaremos as intrigantes características desta modalidade artística que nos faz orgulhosos de ter nascido neste país.

Tão longe de mim distante
Onde irá, onde irá teu pensamento
 Quisera, saber agora
Quisera, saber agora
Se esqueceste, se esqueceste
Se esqueceste o juramento.
 (Excerto da letra de “Quem Sabe”, canção de Carlos Gomes sobre poesia de Bittencourt Sampaio)





quarta-feira, 24 de maio de 2017

O que é música?

Vivemos rodeados de música. Ouvimos música em CDs, DVDs, smartphones, streamings; nas propagandas de rádio e TV; nas novelas; nos filmes; nas lojas e supermercados; em carros de propaganda; no horário político da TV, enfim, em todos os ambientes e em uma infinidade de situações cotidianas. No entanto, se alguém nos perguntar: “o que é música?”, teremos uma enorme dificuldade para responder a esta pergunta.
Os mais importantes dicionários brasileiros dizem que música é uma “combinação harmoniosa e expressiva de sons” ou que é a “arte e ciência de combinar os sons de modo agradável ao ouvido”. As duas definições são muito semelhantes.
Convenhamos, certamente não existe uma composição que soe harmoniosa e agradável a todos os habitantes da terra.  Sabemos que cada pessoa gosta de um determinado tipo de musica. E mais: será que a vovó considera as gravações do Sepultura agradáveis ao seu ouvido? Outra coisa: os compositores não organizam somente sons e, sim, sons e silêncios.
O compositor estadunidense John Cage criou a composição Tacet 4’33’’, que consiste nos quatro minutos e trinta e três segundos em que um pianista se prepara para tocar o piano e não o toca. Portanto, Cage não combinou nem organizou sons. Há o caso pitoresco em que o compositor jogou um piano do alto de um edifício para gravar o ruído de seu som ao espatifar-se no chão. Por esses e por dezenas de outros motivos temos dificuldade para definir esta modalidade artística que está presente em quase tudo o que fazemos na vida.
A definição de música que mais me agrada é a do compositor canadense Murray Schafer, que diz o seguinte: “Música é uma organização de sons com a intenção de ser ouvida”. Portanto, se um músico organiza determinados tipos de som (melodias, ruídos eletrônicos, barulhos de objetos utilitários etc.) e tem a intenção de que o público ouça aquela organização, ele está fazendo música.  Você pode estar se perguntando: “eu acabei de ler que os compositores organizam sons e silêncios e onde está o silêncio na última definição apresentada?”
Schafer a criou para um público específico, ou seja, músicos e professores de música, portanto, embora não haja a palavra silêncio na sua definição, sabemos que ele, implicitamente, quis dizer que música é uma organização de sons e silêncios com a intenção de ser ouvida.