quinta-feira, 5 de junho de 2025

O que a Festa da Penha tem a ver com o samba?

             


            No início do século 20, período no qual foi forjado o samba urbano, no Rio de Janeiro - consequentemente, a canção popular como a conhecemos hoje -, não havia como os compositores pretos e pobres divulgarem suas produções, pois não ainda havia sequer rádio.

Os compositores de música instrumental de classe média (mais tarde, também os cancionistas remediados) tocavam nas lojas que vendiam instrumentos e partituras, para divulgarem suas obras.

Como o samba não faz parte da tradição grafomediada, isto é, da tradição de compositores que compõem tendo a escrita musical como mediadora da criação, de que modo fariam os compositores de samba, que frequentavam os terreiros das Ialorixás, chamadas popularmente de "tias baianas", para fazerem sua obra ir além do território conhecido como Pequena África, onde atualmente fica o Cais do Valongo? Vejamos.

No final de abril, acontece, desde então, a grande Festa da Penha, que tem lugar na Basílica Santuário de Nossa Senhora da Penha. Para lá, um grande contingente de cariocas se dirigia para festar durante uma semana.

Começam os preparativos para a Festa da Penha – ES Brasil

Festa da Penha 2022 - Missa Encerramento - Foto Fernando Ribeiro

Como o artista tem de ir aonde o povo está, para lá se dirigiam Donga, Sinhô, Bahiano, Ismael Silva, Assis Valente, João da Baiana, Pixinguinha e toda a plêiade de precursores da canção popular feita pra tocar no rádio. Lá, cantavam, tocavam e, assim, seus sambas ficavam mais conhecidos e começavam alçar voo.

Não à toa a Festa da Penha, como é conhecida, e/ou o bairro da Penha são citados frequentemente nas letras da canção popular brasileira, vejamos alguns exemplos:

Eu fui à penha

Fui pedir à padroeira para me ajudar” – Brasil Pandeiro, de Assis valente

 

“Hoje é domingo

E, eu preciso ir à festa

Não brincarei

Quero fazer uma oração

Pedir à santa padroeira proteção

Entre os amigos

Encontrarei algum que tenha

Hoje é domingo

E, eu preciso ir à Penha – Festa da Penha, de Cartola

 

Demonstrando a minha fé

Vou subir a Penha a pé

Pra fazer minha oração

Vou pedir à padroeira

Numa prece verdadeira

Que proteja o meu baião - Baião da Penha – Guio de Moraes e Luiz Gonzaga

 

Você é a festa da Penha

A feira de São Cristóvão

É a Pedra do Sal– Pé do Meu Samba – Caetano Veloso

 

Até esse cancionista que vos escreve já subiu os 365 degraus da “Igreja da Penha” para pagar promessa, mesmo sem nunca ter me declarado católico. Talvez, lá tenha ido intuitivamente, seguindo meus mestres ancestrais do samba.

 

 

terça-feira, 6 de maio de 2025

Educação musical pra quê?



Estamos acostumados a ver a preconização da educação musical sempre com a justificativa de que tal prática estimula a concentração, a atenção, a coordenação motora, as inteligências intra e interpessoal etc. Ora, estuda-se línguas, geografia, matemática, biologia, física, química porque são áreas do conhecimento humano, ou seja, assuntos que permeiam a vida humana, e, não, por algum motivo externo a elas.

Com a música não pode ser diferente! Embora as argumentações aqui citadas tenham fundamento, na verdade, devemos estudar música porque ela faz parte da vida humana. Ouvimos música na escola, no rádio, nas propagandas, na igreja, quando estamos tristes, quando estamos felizes, nas festas, nos velórios, enfim, a música é uma área do conhecimento humano que merece ser estudada por si própria!

Segundo importantes estudos, a educação musical não pode ser remediada no ensino fundamental, isto é, as oportunidades que se perderam na educação infantil somente podem ser compensadas, porém, jamais serão remediadas a ponto de se dizer que a alfabetização sonora possa ser dispensável na educação infantil.

Digo alfabetização sonora em lugar de “musicalização”, pois as crianças de três a cinco anos ainda estão em fase de aprendizado dos signos sonoros. Nessa fase, para elas, ainda é difícil perceber a gradação de um som muito agudo para um super grave. Ainda têm dificuldade para perceber a constância de um batimento. Além de ainda não saberem ao certo se uma explosão é motivo de festa ou de uma catástrofe. Daí a importância de investigarmos a paisagem sonora na qual essas crianças estão inseridas.

Depois de alfabetizadas desse ponto de vista, essas crianças terão uma percepção sonora que facilitará sua musicalização nos anos posteriores de sua trajetória escolar.

Entretanto, não podemos perder de vista que a música é um elemento facilitador da ludicidade e da alegria, portanto, mesmo que não estejam cientes da importância da alfabetização sonora, todos os professores de educação infantil já intuem, de algum modo, que a música tem de estar em sala de aula. E, do meu ponto de vista, intuição de professor e parecida com intuição de mãe.

Márcio Coelho

 Nota: Texto que redigi para o caderno de atividades musicais, criado por mim e pela Ana Favaretto, para a coleção "Tantos Traços", dos Sistema de Ensino Ético, da Editora Saraiva:


quinta-feira, 17 de abril de 2025

Soneto ou Tamanco?

 


                                Colocar letra em uma melodia é extrair de um modo de dizer o que pode ser dito, afirma Luiz Tatit. Assim como Paul Valèry, explicando como o "poeta desperta no homem", conclui: " às vezes, alguma coisa quer se exprimir, às vezes, algum meio de expressão quer alguma coisa para servir".

                               Este modo de dizer melódico, na verdade, é um mecanismo de contenção da velocidade da fala, ou seja, através das reiterações do discurso musical, o cancionista estabiliza as entonações desordenadas da fala cotidiana que, se não fossem os recursos melódicos, estariam fadadas à coadjuvação, apenas produzindo ênfase ao conteúdo do discurso oral e desaparecendo assim que a mensagem fosse inteiramente compreendida pelo destinatário. Na canção, ao contrário, a melodia significa.

                                Além dos compositores-cancionistas, craques em fazer letras concomitantemente com a melodia, a recente história da canção popular brasileira já elenca outros tantos craques em extrair do modo melódico de dizer aquilo que pode ser dito. Paulo César Pinheiro, Aldir Blanc, Capinam, Cacaso, Victor Martins, Fernando Brant, Antônio Cícero, Abel Silva, entre muitos outros, foram e são responsáveis por dar à expresão melódica de seus parceiros alguma coisa para servir e, não raramente, o cardápio é variado e saboroso.

                                 Não obstante o grande respeito dispensado aos letristas, anedotas mil acometem este peculiar fazer estético. Precisaria de dezenas de páginas para comentar apenas as que ouvi ou li e ainda guardo na memória, mas, as duas que se seguem são por demais interessantes para não serem propagadas.

                                Certa vez Sílvio Caldas pediu a Claudionor Cruz e Pedro Caetano que lhe fizessem, com a urgência de uma semana, uma canção nos moldes do então sucesso de Bororó, "Curare". Os compositores sabendo que não teriam tempo para se encontrar, resolveram o problema de uma maneira muito peculiar, seguindo à risca a encomenda: Claudionor faria uma nova melodia para os versos de "Curare" e Pedro Caetano uma nova letra para a melodia da mesma canção. A dois dias da estréia, Sílvio Caldas se encontra com os compositores e juntos fazem os ajustes finais do sucesso que naquele momento nascia, e fora batizado de "Nova Ilusão", sendo por muitos considerada como a canção mais bem feita da dupla.

                                   A obra de Chico Buarque talvez seja a que mais tenha sofrido paráfrases anedóticas nestes últimos trinta anos. Recentemente, em uma lista de discussão na internet, li o seguinte comentário: Tom Jobim havia terminado a melodia de "Retrato em Branco e Preto" e pediu para seu parceiro, Chico Buarque, colocar-lhe letra. Após freqüentes telefonemas cobrando a letra do parceiro, Chico terminou o serviço e a enviou a Tom. Pouco tempo depois, o compositor da melodia telefona a Chico e lhe diz: Está tudo certo, mas as pessoas não dizem "retrato em branco e preto" e sim "retrato em preto e branco". Ao que Chico teria respondido: Está bem, então você troca "soneto" por "tamanco". É isso.

 

Márcio Coelho é cancionista e mestre e doutor em semiótica aplicada à canção popular brasileira na FFLCH-USP-SP.